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Suco de picles e mostarda para cãimbras: ciência ou apenas um susto no cérebro?

Suco de picles para cãimbra: ciência ou apenas um susto no cérebro?

A cena é um clássico do esporte, seja no amador ou na elite: o atleta trava no meio do jogo com uma cãimbra dolorosa e, no desespero, alguém corre com um pote de suco de picles ou um sachê de mostarda. Pode parecer simpatia de vestiário, mas cerca de 25% dos treinadores endossam a prática. E a verdade é que, muitas vezes, a dor para.

Mas, como nutricionista, preciso ser o chato que estraga a magia: isso não funciona pelo motivo que a maioria pensa. Não existe “reposição instantânea”. Vamos entender o que realmente acontece.

O mito da reposição imediata

A crença popular é simples: “Estou com cãimbra por falta de sal, o picles tem sal, logo, ele resolve”. A química, porém, não obedece a essa velocidade.

Estudos sérios, como os do Dr. Kevin Miller, mostram que beber suco de picles ou comer mostarda não altera a concentração de sódio ou potássio no sangue nos primeiros 60 minutos após a ingestão. O corpo demora para absorver e distribuir esses eletrólitos. Se a cãimbra passa em 30 segundos e o nutriente demora uma hora para cair na corrente sanguínea, a conta não fecha. Fisiologicamente, é impossível que tenha sido uma reposição de nutrientes.

A matemática não mente

Além do tempo, tem a questão da quantidade. Um atleta suando intensamente pode perder mais de 2 litros de fluídos. Achar que um gole de 80ml de conserva vai repor esse déficit é ilusão.

No estudo citado, apenas 4% do fluido perdido foi reposto com essa prática. Mesmo a mostarda, que tem mais potássio que o picles, não fez nem cócegas nos níveis sanguíneos dos atletas. Tentar hidratar um corpo em colapso com um gole de vinagre é como tentar apagar um incêndio com um conta-gotas.

O perigo real (não é o coração, é o estômago)

Alguns profissionais perdem tempo alertando sobre riscos de pressão alta ou excesso de potássio com essas “receitas”. Bobagem. A quantidade é pequena demais para ser tóxica. O risco real é muito mais prático: enjoo.

Beber vinagre puro ou mostarda logo após se exercitar no calor é uma bomba para o estômago. No estudo de Miller, várias pessoas não conseguiram nem terminar os testes porque ficaram enjoadas. O risco aqui não é clínico, é o atleta vomitar e sair do ”jogo” de vez.

Então, por que funciona?

Se não é o sal entrando no músculo, o que faz a cãimbra parar? A resposta mais aceita hoje é neurológica.

A teoria é a do reflexo orofaríngeo. O gosto extremamente forte, ácido e avinagrado causa um choque sensorial na boca e na garganta. Esse sinal agressivo viaja para o cérebro e, basicamente, “distrai” o sistema nervoso. O cérebro, ocupado processando aquele gosto horrível, reseta os disparos elétricos errados que estavam indo para o músculo.

É um “hack” do sistema nervoso, não nutrição.

Resumo da ópera

O suco de picles e a mostarda não são vilões, mas também não são bebidas esportivas milagrosas. Eles funcionam como um botão de pânico neurológico para parar a dor aguda.

Vale a pena usar? Talvez, se você tiver estômago forte. Mas não se engane: isso não substitui um planejamento de hidratação sério. Depender de enganar seu cérebro com vinagre enquanto seu corpo continua desidratado é um remendo, não uma estratégia de performance.

Por: Nutricionista Felipe Costa

Baiano, Nutricionista, Praticante de diversos esportes e especialista em Nutrição Tático Operacional desde 2018. Idealizador do N.T.O (Nutrição e Treinamento Tático Operacional) (Criado em 2024, atual). Nutricionista Parceiro GRR/PRF. (atual) Nutricionista Parceiro ANP/PF. (atual) Nutricionista Parceiro GT3/PCGO. (atual) Nutricionista Parceiro CORE/PCERJ / CORE/PCBA / CORE/PCES. (atual) Professor de Pós Graduação no Instituto Doutrina Policial. (Atual) Fundador Bio Efficiency (2010). Fundador Flora Orgânicos (2016). Pesquisador IBICT (2019).

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